agosto 24, 2011

Quando tudo se desfaz (Pema Chödrön)

Quando tudo se desfaz

Pema Chödrön

O pai de uma criança de dois anos conta que ligou a televisão e, inesperadamente, viu a destruição causada por uma bomba colocada em um edifício público de Oklahoma. Assistiu, enquanto os bombeiros carregavam corpos inertes e ensangüentados de bebês que eram retirados das ruínas da creche que funcionava no primeiro andar. Diz que, no passado, era capaz de se distanciar do sofrimento alheio. Mas, desde que se tornara pai, isso havia mudado. Sentia como se cada uma daquelas crianças fosse seu filho. Sentia a dor de todos os pais como sendo sua.

Essa identificação com o sofrimento dos outros, a incapacidade de continuar a observá-lo de longe, é a descoberta de nossa ternura, a descoberta do bodhichitta. Essa é uma palavra sânscrita que significa "coração nobre ou desperto". Diz-se que está presente em todos os seres. Assim como a manteiga é parte do leite e o óleo, da semente de gergelim, essa ternura é inerente a mim e a você.

Stephen Levine escreve sobre uma mulher que estava morrendo, em terrível sofrimento e extrema amargura. No momento em que sentiu que não podia mais suportar a dor e o ressentimento, inesperadamente, passou a experimentar o pesar de outros em agonia: uma mãe faminta na Etiópia, um adolescente desvairado morrendo de overdose em um apartamento imundo, um homem esmagado por um deslizamento de terra, morrendo sozinho à margem de um rio. Ela relatou ter compreendido que essa não era a sua dor, mas a de todos os seres. Não era apenas a sua própria vida, mas a vida em si mesma.

Despertamos o bodhichitta, essa ternura pela vida quando não podemos mais nos proteger da vulnerabilidade de nossa condição, da fragilidade fundamental da existência. Nas palavras do décimo sexto Gyalwa Karmapa: "Recebemos tudo. Deixamos que a dor do mundo toque nosso coração e a transformamos em compaixão".

Diz-se que, em tempos difíceis, somente o bodhichitta pode curar. Quando não encontramos inspiração, quando nos sentimos prestes a desistir, esse é o momento em que a cura pode ser encontrada na ternura da própria dor. Esse é o momento de tocar o autêntico coração do bodhichitta. No meio da solidão, do medo, do sentir-se incompreendido e rejeitado, encontra-se a pulsação de todas as coisas, o autêntico coração de tristeza.

Uma pedra preciosa fica enterrada durante um milhão de anos e não perde a cor nem é danificada. Do mesmo modo, por mais que possamos espernear, nada afetará este coração nobre. Essa jóia pode ser trazida para a luz a qualquer tempo e resplandecerá com todo seu brilho, com se nada tivesse acontecido. Não importa quanto estejamos comprometidos com a rudeza, o egoísmo ou a ganância, o autêntico coração do bodhichitta não pode ser perdido. Está bem aqui, em tudo que tem vida, intacto e completamente íntegro.

Quando nos protegemos do sofrimento, achamos que estamos sendo bondosos conosco mesmo. A verdade é que apenas nos tornamos mais amedrontados, endurecidos e alienados. Percebemos a nós mesmos como separados do todo. Essa separação transforma-se em uma espécie de prisão- uma prisão que nos encerra em nossas próprias esperanças e medos, que nos leva a nos importarmos apenas com aqueles que estão mais próximos. O curioso é que, antes de mais nada, estamos tentando nos proteger do desconforto e, com isso, sofremos. Já quando não nos fechamos e permitimos que a dor toque nosso coração, descobrimos nossa afinidade com todos os seres. Sua Santidade, o Dalai Lama, descreve dois tipos de pessoas egoístas: as sábias e as tolas. As tolas pensam apenas em si mesmas, o que resulta em confusão e dor. As sábias acreditam que estar ali, apoiando os outros, é a melhor coisas que podem fazer por si mesmas. Como resultado, sentem alegria.

Quando encontramos uma mulher com o filho no colo, pedindo esmolas na rua, quando vemos um homem surrar impiedosamente seu cão aterrorizado, quando nos deparamos com um adolescente espancado ou com o medo nos olhos de uma criança, damos as costas porque não podemos suportar? Isto é o que a maioria de nós provavelmente faz. Alguém precisa nos encorajar a não deixar de lado o que sentimos, a não nos sentirmos envergonhados pelo amor e pesar que surgem, a não temer a dor. Alguém tem de nos dizer que é possível despertar a ternura que existe em nós e que, ao fazer isso, mudaremos nossa vida.

A prática de tonglen - enviar e receber- tem o propósito de despertar o bodhichitta, de nos colocar em contato com esse coração nobre e autêntico. Essa prática consiste em receber em si mesmo a dor e espalhar alegria, invertendo radicalmente nosso tão bem estabelecido hábito de fazer o contrário.

Tonglen é uma prática que visa a criar espaço, a ventilar a atmosfera de nossa vida para que as pessoas possam respirar livremente e relaxar. Sempre que encontramos o sofrimento, sob qualquer forma, as instruções de tonglen nos dizem para inspirá-lo, com o desejo de que todos possam se libertar da dor. Sempre que encontramos a felicidade, sob qualquer forma, devemos expirá-la, dirigi-la para fora, com o desejo de que todos possam sentir alegria. Essa é uma prática que permite às pessoas sentirem-se menos oprimidas, menos limitadas. Ela nos mostra como amar incondicionalmente...

... Quando nos protegemos para não sentir dor, essa proteção transforma-se em uma espécie de armadura, uma couraça que aprisiona a suavidade de nosso coração. Fazemos tudo o que vem à mente para não nos sentirmos ameaçados. Tentamos prolongar a sensação de estar bem consigo mesmo. Quando vemos nas revistas fotografias coloridas de pessoas se divertindo na praia, muitos de nós sinceramente desejam que a vida pudesse ser assim tão boa.

Quando inspiramos a dor, de algum modo, ela penetra nossa couraça. Nossa proteção vai sendo suavizada. Aquela armadura pesada, enferrujada e rangente começa, enfim, a parecer menos monolítica. Com a inspiração, ela começa a ruir e percebemos que podemos respirar profundamente e relaxar. Bondade e ternura começam a emergir. Não precisamos mais ficar tensos, como se estivéssemos o tempo todo na cadeira do dentista.

Quando expiramos alívio e sensação de espaço, também estamos promovendo a desintegração da couraça. A expiração é uma metáfora para expressar a abertura total de nosso próprio ser. Quando sentimos que algo é precioso, em vez de nos apegarmos fortemente, podemos abrir as mãos e dividi-lo com os demais. Podemos dar tudo. Podemos compartilhar a riqueza desta insondável experiência humana.

Este trecho foi extraído do livro "Quando tudo se desfaz - orientação para tempos difíceis" de Pema Chödön- Editora Gryphus.

Extraído do livro "Orientação para tempos difíceis - quando tudo se desfaz" de Pema Chödrön.

Uma das melhores práticas para a vida cotidiana, quando não temos muito tempo para meditar, é perceber nossas próprias opiniões. Quando estamos praticando meditação sentada, faz parte da técnica estar consciente dos próprios pensamentos. Então, sem julgamentos, sem classificá-los como certos ou errados, simplesmente reconhecemos que estamos pensando. Esse é um exercício de não-agressão em relação a si mesmo e é também uma prática que traz à tona nossa inteligência — ver que estamos apenas pensando, sem acrescentar qualquer tipo de esperança ou medo, louvor ou culpa. No entanto, quando sentamos para meditar, nem sempre nos saímos tão bem. Perceber que estamos pensando, mesmo quando isso acontece apenas por um quarto de segundo durante uma hora inteira, freqüentemente vem acompanhado de culpa ou louvor. É bom ou mau. Seja corno for, outros aspectos estão envolvidos, além de simplesmente rotularmos esse processo como “pensando”.
Entretanto, após praticarmos meditação por algum tempo, nossa mente vai se aquietando, pelo simples fato de estarmos conosco mesmos, sem qualquer outra atividade além de estar atento à própria expiração e perceber os pensamentos. Como conseqüência, aprofundamos cada vez mais nossa percepção. Quer sintamos ou não esse processo, a verdade é que ele está ocorrendo. Na meditação, nós nos permitimos mais espaço, e começamos a ver o que surge com clareza e intensidade crescentes. Vemos que, o tempo todo, produzimos muitos pensamentos e também que surgem lacunas em toda essa tagarelice. Podemos ainda perceber nossas atitudes diante do que está acontecendo. Com isso, entramos em sintonia com nossos padrões habituais e vemos o que fazemos e quem somos no momento em que usamos idéias e opiniões para impedir nossa própria desintegração.
Quando não estamos meditando, também podemos começar a perceber nossas opiniões, da mesma forma que percebemos nossos pensamentos durante a meditação. Essa prática é extremamente útil, pois temos muitas convicções e uma tendência a achar que elas representam a verdade. No entanto, não é bem assim. Elas são apenas nossas opiniões. Nós as sustentamos com grande apoio emocional. Freqüentemente, exprimem julgamentos e críticas. Às vezes, refletem nossa apreciação ou elogio. De qualquer modo, temos muitas opiniões.
Opiniões são opiniões, nada mais, nada menos. Podermos começar a percebê-las e a rotulá-las como tal, assim como rotulamos nossos pensamentos. Por meio desse exercício simples, entramos em contato com a noção de ausência de ego. O ego nada mais é que o conjunto de nossas opiniões, mas nós o consideramos sólido e real — uma verdade absoluta. Ter ao menos alguns segundos de dúvida sobre a solidez e verdade absoluta de nossas próprias opiniões, ao menos começar a ver que elas existem, leva-nos a conhecer a possibilidade de ausência de ego. Não temos de nos livrar delas, nem nos criticarmos por tê-las. Podemos apenas observar o que dizemos a nós mesmos e perceber que grande parte disso só reflete nossa visão particular da realidade, que pode ou não ser compartilhada pelos demais.
É possível simplesmente deixar que nossas opiniões passem e voltar ao momento presente. Voltamos a olhar o rosto de quem está à nossa frente, a saborear nosso café, a escovar os dentes, ou ao que quer que estejamos fazendo. Quando, ao menos por um instante, conseguimos perceber nossas opiniões como opiniões, permitindo que elas se dissipem e voltando à qualidade imediata de nossa experiência, descobrimos que estamos em um mundo novinho em folha, que temos olhos e ouvidos novos.
Quando falo em perceber nossas opiniões, estou me referindo a um método simples para começar a prestar atenção no que pensamos e fazemos, e na grande quantidade de energia que acompanha esse processo. Então, é possível também começar a observar como tornamos as coisas sólidas e como é fácil iniciar uma guerra para que nosso ponto de vista prevaleça sobre o dos demais. Somos especialmente tentados a fazer isso quando estamos envolvidos em algum tipo de causa social.
Vamos utilizar o exemplo da camada de ozônio. Estamos certos, quando afirmamos que sua diminuição é um fato científico, não uma mera opinião. Entretanto, se tentarmos impedir essa destruição tornando sólidas nossas opiniões contra aqueles que consideramos culpados, nunca mudaremos nada. Negatividade gera negatividade. Em outras palavras, mesmo quando nossa causa é nobre ou tem um bom fundamento, nós não a estamos defendendo quando alimentamos sentimentos agressivos pelos opressores ou por aqueles que criam situações de perigo. Nunca mudaremos nada com a agressividade.
Poderíamos argumentar que a não-agressão também não traz muitas mudanças. Ela, entretanto, beneficia imensamente a Terra. A agressividade é a raiz da fome, da miséria e da crueldade no nível pessoal. Quando nos apegamos obstinadamente às nossas opiniões, por mais legítima que seja nossa causa, estamos simplesmente adicionando mais agressividade ao planeta e, com isso, aumentando a violência e o sofrimento. Cultivar a não-agressão é cultivar a paz. Para pôr um fim às guerras é preciso deixar de odiar o inimigo. Esse processo começa quando percebemos que nossas opiniões sobre nós mesmos e sobre os demais são apenas uma visão da realidade, sem transformá-las em um motivo para aumentar a negatividade do mundo.
A chave está em perceber a diferença entre uma opinião e a inteligência límpida. Inteligência é ver os pensamentos como tal, sem classificá-los como certos ou errados. No contexto da ação social, vemos quando governos, empresas e pessoas obviamente estão poluindo os rios ou prejudicando pessoas e animais. Podemos tirar fotos. Podemos documentar os fatos. Vemos que o sofrimento é real. Isso é possível porque temos inteligência e não nos deixamos levar por conceitos de bem e mal, esperança e medo.
Cabe a nós separar o que é opinião e o que é fato. Só assim poderemos enxergar com inteligência. Quanto mais pudermos ver com clareza, mais poderosos serão o nosso discurso e as nossas ações. Quanto menos eles estiverem obscurecidos pela opinião, melhor será nossa comunicação, não apenas com os que estão poluindo os rios, mas também com aqueles a quem cabe pressionar essas pessoas.
Como ensinou o Buda, é importante ver o sofrimento como sofrimento. Não estou falando em ignorar ou calar-se, mas quando não acreditamos tanto em nossas opiniões nem solidificamos o conceito de inimigo, estamos conquistando algo. Quando não nos deixamos levar por nossa indignação, vemos a causa do sofrimento com mais clareza e disso decorre o seu fim.
Esse processo exige enorme paciência. É importante lembrar que, quando estamos lá fora, lutando por reformas sem agressividade, estamos trazendo paz ao mundo, mesmo se não atingirmos nosso objetivo específico. Temos de dar o melhor de nós mesmos e, ao mesmo tempo, desistir de qualquer esperança de realização. Don Juan aconselhou Carlos Castañeda a agir como se suas atitudes fossem a única coisa importante do mundo, sabendo, o tempo todo, que elas não têm importância nenhuma. Isso nos leva a uma maior apreciação e menor desgaste, pois passamos a trabalhar com entusiasmo e carinho. Por outro lado, cada dia é um dia novo. Deixamos de estar tão excessivamente voltados para o futuro. Embora estejamos caminhando com uma direção e nosso objetivo seja diminuir o sofrimento, é preciso lembrar que manter nossa clareza mental, manter nossa mente e coração abertos faz parte dessa ajuda. Quando as circunstâncias nos fazem desejar fechar os olhos, tapar os ouvidos e transformar os outros em inimigos, uma causa social pode ser a prática mais avançada. Como continuar a falar e a agir sem agressividade representa um enorme desafio. Para isso, o passo inicial é perceber nossas próprias opiniões.
Não há ninguém no planeta, nem os que consideramos opressores nem os que vemos como oprimidos, que não possua o que é necessário para despertar. Todos nós precisamos de apoio e encorajamento para tomar consciência do que pensamos, falamos e fazemos. Observe suas opiniões. Se elas o tornam agressivo, perceba esse processo. Se elas o tornam não-agressivo, perceba isso também. Cultivando uma mente que não se apega ao certo e errado, encontraremos um novo modo de ser. Dessa atitude decorre a definitiva interrupção do sofrimento. E finalmente, nunca desista de si mesmo, pois só assim nunca desistirá dos outros. Dedicadamente, procure fazer o que é preciso para despertar sua inteligência límpida, mas faça isso aos poucos, dia após dia, momento após momento. Se vivermos assim, estaremos beneficiando nosso planeta.

Jiddu Krishnamurti - O Ser

O pensamento é tempo. Ele nasce da experiência e conhecimento, que são inseparáveis do tempo e do passado. O tempo é o inimigo psicológico do homem. Nossa ação é baseada no conhecimento e, portanto, o tempo, assim o homem é sempre um escravo do passado. O pensamento é sempre limitado e assim nós vivemos em constante conflito e luta. O importante é o ser e não o vir a ser; um não é o oposto do outro, havendo o oposto ou a oposição, cessa o ser. Ao findar o esforço para vir-a-ser, surge a plenitude do ser, que não é estático; não se trata de aceitação; o vir-a-ser depende do tempo e do espaço. O esforço deve cessar; disso nasce o ser que transcende os limites da moral e da virtude social, e abala os alicerces da sociedade. Esta maneira de ser é a própria vida, não mero padrão social. Lá, onde existe vida, não existe perfeição; a perfeição é uma idéia, uma palavra; o próprio ato de viver e existir transcende toda forma de pensamento e surge do aniquilamento da palavra, do modelo, do padrão.
(Jiddu Krishnamurti)

Krishnamurti A-Verdade-é-uma-terra-sem-caminho

Obras de Krishnamurti publicadas pela Cultrix:

KRISHNAMURTI (Jiddu Krishnamurti) nasceu no Sul da Índia em 1895 e foi educado na Inglaterra. Embora não tenha ligações com nenhuma organização filosófico-religiosa nem se apresente com títulos universitários, vem fazendo conferências para grupos de líderes intelectuais nas maiores cidades do mundo, há já várias dezenas de anos. Além dos volumes editados pela Cultrix, grande número de publicações, de palestras e conferências suas foram lançadas em português, com êxito igual ao obtido quando publicadas em espanhol, francês, alemão, holandês, finlandês e vários outros idiomas, além do original inglês.

Obras de Krishnamurti publicadas pela Cultrix:

O Começo do Aprendizado
Comentários Sobre o Viver
A Cultura e o Problema Humano
O Descobrimento do Amor
Diálogos Sobre a Vida
Diário de Krishnamurti
A Educação e o Significado da Vida
Fora da Violência
O Homem e seus Desejos em Conflito
O Homem Livre
A Importância da Transformação
liberte-se do Passado
A Mente sem Medo
O Mistério da Compreensão
A Mutação Interior
Uma Nova Maneira de Agir
Novos Roteiros em Educação
Palestras com Estudantes Americanos
O Passo Decisivo
Perguntas e Respostas
A Primeira e Ultima Liberdade
Que Estamos Buscando?
A Rede do Pensamento Reflexões Sobre a Vida
A Suprema Realização

Obras de Krishnamurti publicadas pela Instituição Cultural Krishnamurti:

A Essência da Maturidade
Onde Está a Bem-Aventurança
O Novo Ente Humano
A Questão do Impossível
A Outra Margem do Caminho
A Luz que não se Apaga
Como Viver Neste Mundo
A Libertação dos Condicionamentos
Encontro com o Eterno
O Despertar da Sensibilidade
O Vôo da Águia

Skoob NicDias

Pense Nisso - Jiddu Krishnamurti

A Mente Sem Medo - Jiddu Krishnamurti

A Beleza da Música Relaxante

Introdução à Filosofia Espírita - J. Herculano Pires

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