junho 21, 2013

Krishnamurti
Jiddu Krishnamurti (1895-1986). Foi um dos maiores pensadores da Índia do século XX, e exerceu grande influência espiritual no Ocidente.
Krishnamurti fez conferências em vários países até sua morte, em 1986, aos noventa anos de idade. Suas palestras e diálogos, diários e cartas têm sido preservados em livros e gravações.
Falou em várias universidades, a professores e a grupos de estudantes, nos EUA, na Europa e Índia. Foi frequentemente procurado por pensadores e cientistas, com os quais estabeleceu debates, entre eles o físico David Bohm.
 
 
VRB – A realidade é a mais importante de todas as questões metafísicas. Pode a mente conhecê-la?
 
Krishnamurti – A realidade não é cognoscível pela mente, porque a mente resultado do conhecido, do passado.
A Realidade não é contínua, não é permanente, porém uma coisa que se precisa descobrir momento por momento.
 
VRB – Por isso, muitas pessoas vivem a procura de mestre e gurus para compreender a realidade.
 
Krishnamurti – Não há intermediário entre vós e a Realidade; e se o há, é um corruptor, um malfeitor, não importa quem ele seja, se o mais sublime Salvador ou vosso mais novo guru ou instrutor. Vós sois o vosso próprio mestre e o vosso próprio discípulo.
 
VRB – Se temos uma finalidade na vida, qual seria ela?
 
Krishnamurti – O homem existe com a só finalidade de descobrir a Realidade ou Deus.
Creio numa realidade que existe de momento em momento e que, absolutamente, não se encontra na esfera do tempo.
Viver não é, em si, a própria finalidade?
 
VRB – Deus ou a realidade é uma questão de crença?
 
Krishnamurti – Deus é para ser encontrado, descoberto, não se deve crer nele. Para descobri-lo, a mente tem de estar livre tanto da crença como da descrença.
Se pensais em Deus, esse Deus é a criação do vosso pensar.
Deus não pode ser conhecido. Ele é totalmente desconhecido. Não pode ser experimentado.
 
VRB – Estamos sempre a procura de respostas. Mas quase nunca propomos perguntas adequadas.
 
Krishnamurti – O importante ao fazer-se uma pergunta não é achar a resposta, mas compreender o problema.
Não há respostas para a vida.
O que existe é o problema, e não a solução. Se conhecerdes o fundo do problema, a resposta estará lá.
A pessoa que está pedindo, rogando, suplicando, ansiosa por uma orientação, achará aquilo que deseja, mas não será a verdade. O que receberá será a resposta das camadas inconscientes de sua própria mente, as quais se projetam no consciente; aquela voz tranqüila e suave que lhe dá orientação, não é o real, mas tão só, a resposta do inconsciente.
 
VRB – Muito se tem discutido sobre a verdade. Como poderemos saber o que é a verdade?
 
Krishnamurti – Deus ou a verdade - ou como quiserdes chamá-lo - é algo que tem de ser experimentado diretamente, de momento a momento.  A verdade não tem continuidade, é um estado atemporal.
Não se pode procurar a verdade: ela é que vem.
Nem há muitos caminhos para a verdade, nem há um só caminho; não há caminho algum.
 
VRB – Deus, realidade, desconhecido e verdade, na sua acepção, são a mesma coisa?
 
Krishnamurti – O desconhecido é a Verdade, Deus, ou como quiserdes chamá-lo.
 
VRB – O que é a meditação?
 
Krishnamurti – A meditação é o libertar da mente dos seus pensamentos em todos os níveis.
A meditação é o expurgo do “conhecido”. É um ato que termina a cada minuto, um ato sem continuidade. Assim, a meditação é compreender, é estar consciente do processo total da consciência e nada fazer em relação a ela.
A nossa mente consciente foi condicionada para se ajustar o ambiente. Só a meditação pode libertar a mente do conhecido. Ela consiste na compreensão do processo de pensar. A meditação resulta da atenção completa.
Assim, meditação é compreender, é estar cônscio do processo total da consciência, e nada fazer em relação a ele; quer dizer, morrer instantaneamente para o passado.
 
VRB – Há distinção entre meditação e concentração?
 
Krishnamurti – Concentração não é meditação, porque, quando há interesse, é relativamente fácil concentrar-nos em al­guma coisa. Um general, ao planejar a guerra, a carnificina, está muito concentrado. O homem de negócios que está amontoando dinheiro é muito concentrado, capaz mesmo de ser cruel, pondo de parte todos os outros sentimentos, para concentrar-se completamente naquilo que deseja. O homem que está interessado em qualquer coisa, está naturalmente, espontaneamente concentrado. Tal concentração não é meditação, é, apenas, exclusão.
Que é então meditação? Por certo, meditação é compreensão — o meditar do coração é compreensão. Como pode haver com­preensão, se há exclusão? Como pode haver compreensão, quando há rogo, súplica? No compreender há paz, há liberdade; uma coisa que compreendeis, dessa coisa estais liberto. O simples concentrar-se ou rezar não traz compreensão. A compreensão é a base mesma, o processo fundamental da meditação. Não precisais aceitar a garantia de minha palavra, pois basta examinardes a oração e a concentração, muito atenta e profundamente, para verdes que nenhuma das duas leva à compreensão. Levam apenas, à obstinação, a uma fixação, à ilusão. Ao contrário, a meditação, na qual há compreensão, há liberdade, clareza, integração.
 
VRB – O que é conhecer? Há limites para o conhecimento?
 
Krishnamurti – O processo de conhecer e infinito. Por isso, não há aprender mais, mas, tão-só, aprender sempre.
Podemos conhecer o que está morto: nunca, porém, o que tem vida.
O conhecido só pode experimentar o conhecido.
 
VRB – O saber pode produzir a compreensão?
 
Krishnamurti – O saber não conduz à compreensão, mas a compreensão pode enriquecer saber e o saber pode completar a compreensão.
 
VRB – Pode a exagerada ânsia pelo saber tornar-se um vício?
 
Krishnamurti – O saber é um apego, como o beber; o saber não traz compreensão.
 
VRB – Cuido que aprender é mais importante do que conhecer.
 
Krishnamurti – A vida é um “processo” de aprender; mas não se pode aprender acumulando.
 
VRB – Quase todas as pessoas querem conhecer para alcançar algum objetivo, chegar a alguma conclusão.
 
Krishnamurti – Não há chegar; há só o movimento de aprender e esta é a beleza da vida”.
A maioria de nós não é livre para aprender, porque estamos acostumados a ser ensinados.
Aprender é um constante processo de eliminação do que se está acumulando, eliminação, a fim de se continuar descobrindo.
 
VRB – A atenção é fundamental no processo de aprendizagem. O que é a atenção? Como é estar atento?
 
Krishnamurti – Atenção é o estado em que desaparece todo conhecimento e só há investigação.
Para se prestar atenção têm de ser postos à margem todos os valores, opiniões, juízos, avaliações, interpretações.
 
VRB – A atenção exclui a sensação do tempo?
 
Krishnamurti – A atenção é o presente ativo.
 
VRB – O que é o autoconhecimento?
 
Krishnamurti – O autoconhecimento é a descoberta momento por momento dos movimentos do eu, suas intenções e buscas, seus pensamentos e apetites. O autoconhecimento é infinito e por isso nunca se chega a uma conclusão. É um processo extraordinário, porque o “eu” nunca é o mesmo a cada momento.
A compreensão fundamental de si mesmo não resulta da aquisição de conhecimento ou da acumulação de experiências, pois isso é só cultivo da memória. A compreensão de si mesmo acontece momento por momento.
O autoconhecimento é o começo da sabedoria.
Ora, existe algum meio, algum sistema de nos conhecermos? Qualquer pessoa talentosa, qualquer filósofo pode inventar um sistema, um método; mas, naturalmente, a observância de um sistema só produzirá um resultado criado por esse sistema, não é verdade? Se sigo um determinado método de conhecer a mim mesmo, terei o resultado que esse sistema necessariamente produz; mas o resultado, é evidente, não será a compreensão de mim mesmo. Isto é, se sigo um método, um sistema, um meio de me conhecer, estou moldando meu pensar, minhas atividades segundo um padrão, e a observância de um padrão não é compreensão de si mesmo.
Seguir um sistema é invariavelmente o resultado do nosso desejo de segurança, de certeza, e daí, é claro, não resulta a compreensão de nós mesmos. Quando seguimos um método, necessita mos de autoridades — o instrutor, o guru, o salvador, o Mestre — para nos garantirem o que desejamos; e este, por certo, não é o caminho do autoconhecimento.
E, agora, que entendemos por “autoconhecimento”? Que significa “conhecer a si mesmo”? Conheceis a vós mesmo? O “eu” é uma coisa estática, ou uma coisa em constante mutação? Posso conhecer-me? Conheço minha mulher, meu marido, meu filho, ou conheço apenas o retrato feito pela minha mente? É bem de ver que não posso conhecer uma coisa viva, não posso reduzir uma coisa viva a uma fórmula; o que posso fazer é, tão-somente, segui-la, aonde quer que leve; e se a sigo, nunca poderei dizer que a conheço. Assim, o conhecimento do “eu” significa seguir o “eu”, seguir todos os pensamentos, sentimentos, motivos, sem nunca dizer “conheço”. Só se pode conhecer o que é estático, morto.
Compreender a si mesmo é de suma importância, uma vez que não posso compreender nenhum problema humano, sem compreender o instrumento que observa, o instrumento que percebe, que examina.
Não tem fim o conhecimento de nós mesmos, pois é um movimento constante.
 
VRB – Filósofos entendem que a experiência é mais importante  do que a razão. O que é a experiência?
 
Krishnamurti – No momento de experimentar não estais cônscios de vós mesmos, como “experimentadores” separados da experiência: estais num “estado de experimentar”. Tomemos um exemplo muito simples: estais irritados; no momento da irritação não há “experimentador” e experiência, só há experimentar. Mas, no instante em que saís desse estado, uma fração de segundo após o experimentar, surge o experimentador e a experiência, o agente e a ação com um fim em vista, que é o de libertar-vos da irritação ou reprimi-la. Vemo-nos repetidamente nesse estado, no estado de experimentar, mas assim que saímos dele, aplicamos-lhe um termo, um nome, e o registramos, conferindo, assim, continuidade ao “vir a ser”.
 
VRB – Pode alguém viver em solidão voluntária? O que ganharia com essa experiência que me parece anódina?
 
Krishnamurti – Não se pode viver no isolamento. A vida é experiência, experiência é relação.
As relações, sem dúvida, são um espelho em que nos descobrimos. Sem relações não existimos. Ser é estar em relação, estar em relação é existir. Só existis em relação, de outro modo não existis, a existência nada significa. Não é porque pensais, que existis, que vos tornais existentes. Existis porque estais em relação, e é a falta de compreensão das relações que causa conflito.
Só pode haver relações verdadeiras quando há amor.
 
VRB – A individualidade tem, por fundamento, a memória? Se assim for, a perda da memória é a morte da individualidade.
 
Krishnamurti – A memória fatual é imprescindível, como meio de ganharmos a vida, mas será imprescindível a memória psicológica?
Por que se tornou tão importante a memória? Pela razão simples e óbvia que não podemos viver completamente no presente.
A memória relativa a coisas técnicas é essencial, mas a memória, que mantém o “eu” e o “meu”, que dá identidade e continuidade ao “eu”, é coisa de todo prejudicial à vida e à realidade.
 
VRB – Penso, logo sou, dizia Descartes. Pensar é ser?
 
Krishnamurti – Todo pensar é condicionado. O processo do pensamento é reação da memória e a memória é sempre condicionada.
O pensador não criou o pensamento; foi o pensamento que criou o pensador.
Ninguém pode pensar numa coisa que não conhece; isto é impossível. O que se pode pensar sai do conhecido, do passado, seja remoto, seja o de um segundo atrás.
Terminado o momento vivido, o pensamento se apodera dele e lhe aplica um termo, dentro da categoria do conhecido.
 
VRB – O sofrimento é um tema constante na Religião e na Filosofia. Muitas são as explicações para o sofrimento. O que você pensa a respeito?
 
Krishnamurti – O sofrimento, na maioria das vezes, não passa de autocomiseração. O sofrimento não deve ser comparado. Comparação gera “compaixão de si mesmo” e, conseqüentemente, desdita.
Para se compreender o sofrimento é necessário o real experimentar dele e não há “ficção” verbal do sofrimento.
 
VRB – A filosofia epicurista aconselhava evitar o sofrimento.
 
Krishnamurti – Evitar o sofrimento é fazê-lo mais forte.
Temos de aplicar toda a nossa atenção à compreensão do sofrimento, e isso não é possível quando estamos procurando fugir do sofrimento, ou quando nossa mente está ocupada em buscar-lhe a causa.
 
VRB – Religiões e místicos encaram o sofrimento como uma purificação para o espírito.
 
Krishnamurti – Pensamos no sofrimento como um meio de se alcançar uma outra coisa – o céu, a paz, etc. - e por essa razão fizemos do sofrimento uma virtude.
 
VRB – O que é a esperança?
 
Krishnamurti – A esperança é o “processo” do tempo. Quando estamos felizes, não temos esperança. Viver é existir sem esperança e sem apreensão pelo amanhã. Pela esperança do amanhã sacrificais o hoje.
 
VRB – A finalidade do homem é ser feliz?
 
Krishnamurti – A felicidade não é um fim em si mesma. A felicidade é um derivado, um subproduto de outra coisa.
A felicidade é o resultado da realidade. Vem da compreensão do que. Ela só se acha no agora.
 
VRB – Myra y Lopes classificou o medo como um dos quatro gigantes da alma.
 
Krishnamurti – O medo começa a existir, quando desejamos viver segundo um determinado padrão. O medo nasce da possibilidade da perda do conhecido.
Em geral, o que tememos é a palavra e não o fato. Não há medo no presente real, vivo, dinâmico.
 
VRB – Alguns filósofos combatem a religião por considerá-la um processo de alienação.
 
Krishnamurti –  Religião não é questão de dogma, ortodoxia e ritual; não é crença organizada. Religião é a busca da verdade. É a investigação para descobrir o Desconhecido.
Religião é uma experiência instantânea daquele estado mental que está fora da continuidade do tempo.
A verdadeira religião é a da mente que compreende os seus próprios processos.
 
VRB – Como você vê a educação no mundo moderno?
 
Krishnamurti – Nossa educação, na atualidade, é mero cultivo da memória, é a repetição e frases, de palavras, a aquisição de técnicas.
A moderna educação ensina a criança o que pensar e não a pensar.
O educador também tem de ser educado. Os mais velhos vos dizem que a vós — a nova geração — cabe criar um mundo dife­rente, mas a intenção deles não é esta, absolutamente. Pelo contrário, com muita reflexão e cuidado se põem a "educar-vos" para ajustar-vos ao velho padrão, com certas modificações. Embora usem palavras muito diferentes, mestres e pais, apoiados pelo governo e a sociedade, estão cuidando de treinar-vos para vos ajustardes à tradição, para aceitardes a ambição e a inveja como a norma natural da vida. Pouco lhes importa uma nova norma de vida, e por essa razão é que o próprio educador não está sendo corretamente educado. A velha geração criou este mundo belicoso, este mundo de antagonismo e divisão entre os homens; e a nova geração está lhe seguindo as pegadas muito diligentemente.
Não nos educam, de pequeninos, para escutar, investigar, compreender; nunca nos põem na presença dos problemas; só se nos dão respostas – o que deveria ser, o exemplo, o herói, o santo que devemos imitar, copiar. Assim jamais nos mostram as implicâncias do problema – e isto, este mostrar, é a verdadeira educação. Como não fomos educados para conhecer as sutilezas dos problemas, para a compreensão dos problemas, vemo-nos confusos quando nos chocamos com um problema, e logo queremos encontrar uma solução. Não há respostas para a vida. A vida é uma “coisa viva” , de momento a momento, e o homem que busca uma resposta para vida, está buscando a estagnação da mediocridade. A questão, por conseguinte, não é achar a solução, mas compreender o problema; o problema – e não a solução – é que contém a Verdade.
 
VRB – Qual a relação que se pode estabelecer o “eu”, a mente e a consciência?
 
Krishnamurti – O “eu”, o “ego” nada é senão um feixe de lembranças. O conflito é a consciência do eu. A experiência está sempre reforçando o “eu”.
Que é esse “eu” a que vossa mente se apega e que desejais continue existente? O “eu"”só existe em virtude de identificação, com posses, um nome, a família, fracassos, êxitos — tudo o que fostes e desejais ser. Vós sois aquilo com que vos identificastes; sois constituído de tudo isso, e sem isso não existis. É essa identificação com pessoas, com posses e idéias, que desejais subsista, mesmo além da morte; isso é uma coisa viva? Ou é simplesmente uma massa de contraditórios desejos, anseios, preenchimentos, e frustrações, com mais tristezas do que alegrias?
O “eu”, em qualquer nível, é o conhecido; e embora haja camadas do “eu” desconhecidas da mente superficial, essas camadas, no entanto, estão na esfera do conhecido.
A memória relativa a coisas técnicas é essencial, mas a memória psicológica, que mantém o “eu” e “meu”, que dá identidade e continuidade ao “eu”  é coisa de todo prejudicial à vida e à realidade.
A revolução, a revolução psicológica criadora, em que não existe o “eu”, só é possível quando o pensador e o pensamento são um só, quando não há essa dualidade do pensador que controla o pensamento: e eu diria que só essa experiência pode libertar a energia criadora que, por sua vez, realiza a revolução fundamental, a quebra completa do “eu” psicológico.
Sem dúvida, a única coisa capaz de operar transformação fundamental, libertação psicológica criadora, é a vigilância cotidiana, é estarmos cônscios, momento por momento, dos nossos motivos conscientes e inconscientes.
 
VRB – E o medo?
 
Krishnamurti – Tudo o que a mente faz para livrar-se do temor, gera temor. O temor começa a existir quando desejo viver segundo determinado padrão. Viver sem medo significa viver sem determinado padrão.
 
VRB – O pensamento é livre?
 
Krishnamurti – O pensamento é reação da memória: é sempre condicionado. O pensamento, por conseguinte, jamais é livre. Foi o pensamento que criou pensador. Libertamo-nos do condicionamento, quando nos libertarmos do pensar. O pensar negativo é a compreensão do nosso condicionamento.
Não há pensar pessoal. Todo pensar é coletivo.
Sois sempre guiados pela memória.
 
VRB – Por conseguinte, podemos concluir que a vontade também não é livre.
 
Krishnamurti – A vontade é a continuidade de uma decisão baseada na memória, no conhecimento, ou na experiência: a vontade é a reação da mente condicionada.
Minha vontade nasceu do meu passado, foi criada pelo meu saber, pelas experiências que acumulei.
 
VRB – Então, todo esforço para libertarmo-nos é inútil?
 
Krishnamurti – A verdade é que liberta, não o esforço que fazemos para libertar-nos.
 
VRB – A mente pode ajudar-nos na nossa libertação?
 
Krishnamurti – A função da mente é existir separada. De outro modo, a mente não existe. Esvaziar a mente consiste em perceber a sua capacidade de criar ilusões e de se mover somente do conhecido para o conhecido. A mente vazia não é um estado de passividade, mais de intensa atividade crítica de seus próprios conteúdos, isenta de juízos de valor.
A mente que está ocupada, não pode ser criadora. A mente que se ocupa em preencher a si mesma, nunca descobrirá o desconhecido.
É sobremodo interessante observar o processo da mente, ver como ela depende das palavras, como as palavras estimulam a memória ou ressuscitam e vitalizam a experiência morta.
A libertação só é possível pela completa renúncia ao conhecimento.
 
VRB – É possível o conhecimento do nosso inconsciente?
 
Krishnamurti – A mente inconsciente  não pode ser observada por meio da mente consciente. A mente consciente é coisa recente; "recente" no sentido de que foi condicionada para ajustar-se ao ambiente; foi recentemente moldada, pela educação, para adquirir certas técnicas a fim de viver, obter o sustento pessoal; ela contém memórias cultivadas, sendo, portanto, capaz de levar uma vida superficial, numa sociedade intrinsecamente apodrecida e estúpida. A mente consciente pode ajustar-se, pois esta é sua função. E quando é incapaz de adaptar-se ao ambiente, manifesta-se então uma neurose, um estado de contradição, etc. Mas a mente educada, a mente recentemente formada, não pode de modo nenhum investigar o inconsciente, que é antigo, que é resíduo do tempo, de todas as experiências raciais. O inconsciente é o repositório de ilimitado conhecimento das coisas que foram. Assim, como pode a mente consciente observá-lo? Não pode, porque está condicionada, limitada pelos conhecimentos recentes, pelos recentes incidentes, experiências, lições, ambições e ajustamentos. Essa mente consciente de modo nenhum pode olhar o inconsciente, e isso me parece bastante compreensível.
A mente consciente não pode, jamais, achar aquilo que é real. Ela só é capaz de escolher, julgar, pesar, comparar.
Mas, para compreender, descobrir, devemos ouvir sem a resistência da mente consciente, só interessada em debater, discutir, analisar.
 
VRB – Qual a função da consciência?
 
Krishnamurti – A função da consciência é experimentar, nomear, registrar. Dar nome às coisas, porém, dificulta sua compreensão. Os nomes dão continuidade aos nossos sentimentos. As palavras e os símbolos nos distraem do que é.
A mente é o instrumento do conhecido, e portanto não pode achar o desconhecido; só pode mover-se do conhecido para o conhecido.
Só podeis pensar no conhecido; não podeis pensar no desconhecido. No momento em que pensais no desconhecido, ele é apenas o conhecido, que projetastes. Deus ou a verdade é o impensável. Não se pode procurar a verdade: ela é que vem.
Só vos tornais consciente quando há atrito; de outro modo, não há consciência. O conflito é a consciência do “eu”.
 
VRB – Pode-se falar de uma solidão criativa?
 
Krishnamurti – A mente está vazia, quando está atenta e sensível. Nesse estado, o homem está realmente só.
Estar só não é o resultado de negação, de auto-isolamento. O estar só é o expurgo de todos os motivos, de todas as atividades do desejo, de todos os fins.
A solidão é a consciência do eu privado de sua atividade.
 
VRB – O que é a liberdade?
 
Krishnamurti – A liberdade é um estado de ser  que não resulta do desejo de ser livre.
Quando há liberdade, não há espaço nem tempo.
No momento em que desejamos ser algo, já não somos livres.
A ânsia de libertação forja seus próprios grilhões.
Estar cônscio de ser livre não é liberdade. Na própria compreensão do cativeiro encontra-se a liberdade.
A liberdade está sempre no começo e não no fim.
 
VRB – Erich Fromm fazia uma distinção entre liberdade de e liberdade para.
 
Krishnamurti – Ninguém é livre de ou para alguma coisa: é simplesmente livre. A libertação se dá no hoje.
A verdade é que liberta, não o esforço que fazemos para libertar-nos.
A essência da liberdade é a rejeição do conhecido. Porém, onde há escolha, não há liberdade, porque a escolha resulta do nosso próprio condicionamento. O que é livre não pode andar à procura de fim algum.
 
VRB – Pode a mente transcender o seu condicionamento?
 
Krishnamurti – A mente nunca transcende o seu condicionamento e por essa razão nunca é livre.
Onde há escolha não há liberdade, porque a escolha resulta, justamente, do nosso estado condicionado.
A libertação só é possível pela completa renúncia ao conhecido.
Quando a mente está toda ocupada com suas penas, esperanças e temores, não lhe sobra espaço para liberdade.
Ajudar o homem a ser livre e a compreender o problema do ajustamento; ajudá-lo a obedecer, sem ser escravo da sociedade; a observar as normas e padrões, a ajustar-se à sociedade, mantendo sempre aquele extraordinário espírito da liberdade.
Se observardes com muita atenção, vereis que, embora a reação, o movimento do pensamento pareça tão rápido, há vãos, há intervalos entre pensamentos. Entre dois pensamentos há um período de silêncio, que não se relaciona com o processo de pensamento. Observando-o, vereis que esse período de silêncio, esse intervalo, não é temporal, e o descobrimento desse intervalo, o pleno experimentar desse intervalo, liberta-vos do condicionamen­to — ou, melhor, ele não vos liberta, mas o que vem é a libertação do condicionamento. Assim, a compreensão do processo do pensar é meditação. Não estamos apenas examinando a estrutura e o processo do pensamento,  que constitui o fundo da memória,da  experiência,  do  conhecimento,  mas  estamos  também  tentando descobrir se  a mente pode  libertar-se  do  fundo. Só  quando  a mente  não  está  dando  continuidade  ao  pensamento,  quando   ela está tranqüila, numa tranqüilidade não produzida, não causada, só então pode vir a liberdade, um estado livre do fundo.
 
VRB – Parece que, no íntimo, as pessoas querem ter certezas para se sentirem seguras.
 
Krishnamurti – Esse próprio desejo de certeza é o começo da escravidão. Só quando a mente não está aprisionada na rede da certeza, nem está a buscar certeza, só então ela se encontra num estado de descobrimento.
 
VRB – Filósofos e poetas procuram definir o que é o amor. O amor é pensável, ou se trata de uma experiência de natureza subjetiva, variando de pessoa a pessoa?
 
Krishnamurti – O amor é um estado em que não existe pensamento.
O amor é sem “motivo”. O amor é a ação sem agente. Não se pode pensar o amor.
O amor não pode ser pensado, o amor não pode ser cultivado, o amor não pode ser exercitado. A prática do amor, o exercitar da fraternidade está ainda dentro da esfera da mente e por conseguinte não é amor. Quando tudo isso tiver cessado, então nascerá o amor, sabereis então o que é amar. O amor não é então quantitativo, mas qualitativo. Não dizeis "amo o mundo inteiro"; quando sabeis amar a um só, sabeis amar o todo. Porque não sabemos amar a um só, nosso amor à Humanidade é fictício. Quando amais, não há nem um nem muitos: só há amor.
 
VRB – É o amor é uma experiência atemporal?
 
Krishnamurti – O amor não conhece amanhã.
 
VRB – Embora o amor não resulte do desejo de amar, há pessoas que querem amar como uma forma de proteção.
 
Krishnamurti – Para a maioria das pessoas, o amor é isso, com todo seu fumo e confusão: medo da insegurança, da solidão, da frustração, do abandono da velhice, etc.
O amor nunca é segurança; o amor é um estado em que não existe desejo de estar em segurança; é um estado de vulnerabilidade.
Desejais ser amado, porque não amais.
Onde existe o eu, não há amor. Ele é um estado sem causa.
O amor é ação e tudo mais é reação. Só pode haver relações verdadeiras quando existe o amor.
Quando há amor, não há nenhum dever.
 
VRB – O ser humano não sabe viver na insegurança. Ele sempre quer sentir-se seguro: segurança física, segurança psicológica.
 
Krishnamurti – Não há segurança - segurança psicológica - em tempo algum, em nenhum nível, nem com ninguém. O próprio desejo de estar em segurança destrói a segurança.
Estar perdido em companhia de muitos é uma forma de segurança psicológica: estar identificado com um  grupo, uma idéia, secular ou espiritual, é sentir-se em segurança.
A mente que quer estar sempre em segurança é uma mente morta, porque não há segurança, não há permanência nesta vida.
 
VRB – Existe algum estado psicológico em que uma pessoa não se preocupe com a segurança?
 
Krishnamurti – O amor é um estado em que não existe o desejo de estar em segurança.
 

Jiddu Krishnamurti - O Ser

O pensamento é tempo. Ele nasce da experiência e conhecimento, que são inseparáveis do tempo e do passado. O tempo é o inimigo psicológico do homem. Nossa ação é baseada no conhecimento e, portanto, o tempo, assim o homem é sempre um escravo do passado. O pensamento é sempre limitado e assim nós vivemos em constante conflito e luta. O importante é o ser e não o vir a ser; um não é o oposto do outro, havendo o oposto ou a oposição, cessa o ser. Ao findar o esforço para vir-a-ser, surge a plenitude do ser, que não é estático; não se trata de aceitação; o vir-a-ser depende do tempo e do espaço. O esforço deve cessar; disso nasce o ser que transcende os limites da moral e da virtude social, e abala os alicerces da sociedade. Esta maneira de ser é a própria vida, não mero padrão social. Lá, onde existe vida, não existe perfeição; a perfeição é uma idéia, uma palavra; o próprio ato de viver e existir transcende toda forma de pensamento e surge do aniquilamento da palavra, do modelo, do padrão.
(Jiddu Krishnamurti)

Krishnamurti A-Verdade-é-uma-terra-sem-caminho

Obras de Krishnamurti publicadas pela Cultrix:

KRISHNAMURTI (Jiddu Krishnamurti) nasceu no Sul da Índia em 1895 e foi educado na Inglaterra. Embora não tenha ligações com nenhuma organização filosófico-religiosa nem se apresente com títulos universitários, vem fazendo conferências para grupos de líderes intelectuais nas maiores cidades do mundo, há já várias dezenas de anos. Além dos volumes editados pela Cultrix, grande número de publicações, de palestras e conferências suas foram lançadas em português, com êxito igual ao obtido quando publicadas em espanhol, francês, alemão, holandês, finlandês e vários outros idiomas, além do original inglês.

Obras de Krishnamurti publicadas pela Cultrix:

O Começo do Aprendizado
Comentários Sobre o Viver
A Cultura e o Problema Humano
O Descobrimento do Amor
Diálogos Sobre a Vida
Diário de Krishnamurti
A Educação e o Significado da Vida
Fora da Violência
O Homem e seus Desejos em Conflito
O Homem Livre
A Importância da Transformação
liberte-se do Passado
A Mente sem Medo
O Mistério da Compreensão
A Mutação Interior
Uma Nova Maneira de Agir
Novos Roteiros em Educação
Palestras com Estudantes Americanos
O Passo Decisivo
Perguntas e Respostas
A Primeira e Ultima Liberdade
Que Estamos Buscando?
A Rede do Pensamento Reflexões Sobre a Vida
A Suprema Realização

Obras de Krishnamurti publicadas pela Instituição Cultural Krishnamurti:

A Essência da Maturidade
Onde Está a Bem-Aventurança
O Novo Ente Humano
A Questão do Impossível
A Outra Margem do Caminho
A Luz que não se Apaga
Como Viver Neste Mundo
A Libertação dos Condicionamentos
Encontro com o Eterno
O Despertar da Sensibilidade
O Vôo da Águia

Skoob NicDias

Pense Nisso - Jiddu Krishnamurti

A Mente Sem Medo - Jiddu Krishnamurti

A Beleza da Música Relaxante

Introdução à Filosofia Espírita - J. Herculano Pires

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